domingo, 19 de outubro de 2008

Ele

Ele era o mais bonito da escola. O mais popular dir-se-ia nos tempos de hoje, influenciados pela Rebelde Way ou Morangos com Açúcar, mas naquela altura ainda não havia nada disto, quanto muito existia a Malhação e pouco mais. Ele não era o mais popular porque ninguém usava esse termo, era o mais giro de todos e pronto, aquele com que todas as raparigas gostariam de andar, aquele que fazia com que uma rapariga se tornasse também a mais gira da escola só por ele olhar para ela. E ele nunca olhou para mim, verdade seja dita. Enquanto isso, andava enrolado com uma amiga minha, embora nunca tenha acontecido nada de mais, mas nessa altura tínhamos 13 anos, que algo de mais haveria para acontecer? Não éramos tão precoces como são os putos de hoje em dia e nessa altura, nesta terra, quase que aos 13 anos ainda acreditávamos que se podia engravidar por dar beijos na boca. A seguir vi-o enrolado com uma amiga minha (que meses depois de veio a tornar a minha melhor amiga e anos depois de veio a tornar a minha maior inimiga, mas isso já é outra história, e na altura em que este último acontecimento se deu nós já estávamos longe de ser crianças. Mas foi melhor assim.) Ainda me lembro do dia em que estavam a jogar ao beijinho e à estalada e ele não me deixou jogar porque disse que já estavam o número de rapazes e raparigas suficientes e já não precisavam de mim. Eu percebi que devia ser por eu ser feia e, infeliz, voltei para o meu canto e tendo aparelho nos dentes, tornei-me a melhor aluna da escola, porque é isso que acontece sempre, os feios tornam-se inteligentes, não é? E, assim, vivi em silêncio um amor de adolescência pelo rapaz mais bonito da escola desde o 4º até ao 9º ano. Nesse último ano ele descobriu que afinal eu já não era assim tão feia, já não tinha aparelho e não tinha ficado gorda nem com indícios de vir a ser barbuda como outras que tais, nem me tinha enrolado com todos os rapazes da escola só para parecer mais velha. Nesse ano ele descobriu que eu afinal até valia a pena e nessa altura, apesar de até ainda gostar dele porque era burra que nem uma porta, não dei o braço a torcer porque achei que tinha razões para me vingar. E foi assim que, aos 15 anos tive com ele o último diálogo, que até hoje me enche de orgulho, apesar de eu não saber muito bem porquê. Mas aos 15 anos também não se sabe nada e eu nunca vou saber porque é que nunca andei com o rapaz de quem gostava se ele estava interessado em mim e porque é que quando ele veio falar comigo em tons amorosos eu o tratei assim tão mal e porque é que de um momento para outro eu deixei de falar pura e simplesmente com ele, ou porque é que a última coisa que lhe disse foi que o maior tormento da minha vida tinha sido o nascimento dele. E isso, nessa altura, era mesmo muito profundo. E ele não percebeu o que eu quis dizer porque nessa altura, assim como nos dias de hoje, imagino eu, ele tinha a profundidade de um guardanapo e a esperteza de uma batata frita.
Pus-me a pensar nele recentemente porque me invadiu, sem saber muito bem porquê, a curiosidade de saber o que lhe terá acontecido. A verdade é que ele fez com que a minha adolescência fosse mais infeliz, embora eu ainda hoje não saiba porquê, mas acho que é assim o normal. Todas as adolescências têm de ser marcadas por um amor não correspondido e o meu foi ele.

Ao passar em frente à aldeia dele pus-me a pensar que será feito dele. A última vez que o vi tinha o cabelo descolorado e meio comprido, estava mais magro, mal-vestido e tinha umas olheiras que chegavam daqui até Almograve, fruto de muitas ganzas fumadas atrás umas das outras porque o que é fixe é ser-se rebelde. Aquela que andava com ele está gorda que nem um animal muito comum nos Açores e namora com o rapaz mais feio da região.
E eu, que um dia quis ser como eles, agradeço encarecidamente e com todas as minhas forças aos meus pais por, quando eu tinha 13 anos, se terem lembrado de me levar ao dentista.
A vida que tenho hoje devo-a, provavelmente ao aparelhos nos dentes que me impediu de jogar com eles ao beijinho e à estalado ou à apanhada. Arrebentábolhaaaaaaaaa!!!

2 comentários:

_+*Ælitis*+_ disse...

Achei este post hilario e delicioso a ler! partilho coisas contigo: sempre fui feia (até hoje pah, apenas ha dias piores ou melhores que outros), sempre fui a mais gordinha, sempre fui a ultima a ser chamada para a equipa de basquete.... (tas a ver a cena?)... também apaixonei-me pelo menino mais bonito da escola mas fui gozada durante meses/anos por isso e nunca namorei com ninguém na minha escola. Sempre me senti rejeitada então a unica coisa que fiz foi ser boa aluna. Neste caso, a melhor. Graças a Deus. porque inteligencia nem sempre vem com o tempo. Mas o resto, é so sermos pacientes :)

Beijo meu ♥,

A Elite

Inês disse...

Este post está muito muito bom :)