Observo-a de olhos tristes, talvez vazios, devido a uma doença que não sabe porque tem, mas sabe que veio para ficar.
Pergunto-lhe como está. Encolhe os ombros e sorri com a mão à frente da boca.
Faz-me perguntas sobre uma doença que não sabe o que é, mas que lhe conhece os sintomas. Tento responder da forma mais simples possível, de forma a que ela perceba. Digo umas palermices e ela sorri, sempre com a mão a tapar a boca. Estranho o gesto. Ela diz que o faz porque há uns dias partiram-se-lhe dois dentes e agora tem vergonha de rir e mostrar os dentes.
- "A minha boca está uma desgraça." - diz ela.
- Mais uma desgraça - penso eu.
Diz que até já tinha ido ao médico de família para ele lhe passar a credencial para marcar consulta do dentista, mas só conseguiu marcar para Julho. No público é de esperar. E assim se vão passando os dias e meses, sem rir ou rindo envergonhadamente sempre com a mão à frente da boca.
- Nem sorrir pode? Que mais está para vir - penso eu.
Mora sozinha, não tem filhos, não tem família, não tem ninguém que a acuda. Quase não sai de casa e isso faz com que lhe sobre tempo demais para pensar na sua vida e nas suas doenças - que é o que lhe resta. E isso desgasta-a, talvez mais do que a própria doença que, de vez em quando, a obriga a ir ali.
Mais uma D. Maria que encontrei por ali. Cruzo-me com dezenas de Donas Marias e Dons Manuéis todos os dias naquelas salas. Sozinhos, sempre sozinhos porque não têm mais ninguém, porque os filhos não querem saber deles, porque estão doentes ou, pior ainda, porque são velhos, cansados, moucos e a precisar de ajuda.
Eu gostava de ajudá-los mais. Levava-os para casa, quem sabe, mas não posso.
Levo-os no meus pensamento e mesmo assim já é demais - o ciclo devia fechar quando dispo aquela farda, fecho o cacifo, atravesso o corredor, desço as escadas e fecho a porta. Porque era assim que deveria ser.
ENCERRADO | CLOSED
Há 9 anos


4 comentários:
Bem rodopia é uma triste verdade ...
E só vem demonstrar que dia da mãe será todos os dias e não só hoje , tanta hipocrisia no mundo enfim, não digo que o sejamos todos , mas muitos o são ...
Beijinhos
Fico mais preocupada quando disseres que despiste aquela bata e deixaste de te importar ;)
Pessoas decentes importam-se... Sempre!
Gosto da mameira como escreveste o texto. Mostra uma ligeira audacia com um toque de pena por estas marias que tão comuns são. Tratemos das nossas. Se todos o fizessem, não haveriam pessoas pelas quais lamentar.
Tnes um premio no meu blog. Beijinhos.
Ó miga, deveria ser mas não é.
Porque te preocupas. Porque és humana.
E infelizmente, existem mesmo muitas D. Marias, neste mundo.
:)
Bjs!
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