domingo, 24 de maio de 2009

Essa coisa chamada saudade

Enquanto a avó pôs a mesa, eu sei que não te esqueceste de a lembrar de pôr a azeitoneira, com as azeitonas que apanhaste lá nas oliveiras da horta. Não é costume faltar pão nem azeitonas em casa de alentejanos, e a vossa casa não é excepção, obviamente.
A horta sei que se encontra bastante bem cuidada, mesmo que a avó não tenha de passar lá a vida, porque isso implicaria que ela atravessasse todos os dias a linha do comboio e ela sempre foi um pouco menos ágil que tu.
Ela continua a ocupar-se das flores do jardim e das galinhas que tem agora no lugar onde antigamente era a pocilga. Tu continuas a ir à horta todos os dias e a apanhar paus para a fogueira que fazem mesmo que não esteja assim tanto frio, e fazem-na nem que seja pelo facto de que a comida da avó é ainda mais saborosa quando cozinhada ao lume do que feita ao fogão a gás, que vocês nem sequer usam.
Tu continuas com o teu sorriso de sempre, com o cão Fadista sempre por perto, de preferência dentro de poças de água como ele tanto gosta. A avó continua também com o seu ar de rabugente e durona embora, na realidade, não seja nada disso.
Estamos todos aqui, a falar do próximo casamento de familia que vamos ter. Quem é, afinal, o noivo que ninguém conhece. A pôr a conversa em dia quanto ao primo emigrado em Inglaterra, cuja orientação sexual faz corar a avó sempre que falamos nele. A falar no bisneto mais novo que já faz bastantes traquinices. Estamos ver as fotos que a avó tem espalhadas pela casa tiradas quando todos eramos mais novos, quando vos destruiamos o jardim, cada vez que iamos a vossa casa brincar. Estamos todos aqui, juntos. Todos os teus filhos, os teus netos e bisnetos e a mesa não chega para todos nós. Viémos almoçar e eu espero que tu me atires azeitonas, como fazes deste que eu descobri que adoro azeitonas.

A actualidade não é assim mas poderia até ser, avô. A verdade é que nunca chegaste a conhecer os teus bisnetos. E nunca os conheceste porque nos deixaste tinha eu 3 anos. E o que me faz mais confusão é pensar como é que uma menina com apenas 3 anos de idade consegue ter a lembranças que eu tenho de ti, avô.
Como é possível que apenas 3 anos deixem a saudade que os 21 que já passaram não apagam...

2 comentários:

@martasta disse...

há memórias que nos ficam...
Mas tens razão, eras muito pequena...

bjcaaaaaaaaa

Anónimo disse...

Quando as memórias são boas, perduram para sempre!
:)